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  • Tatiane Fuggi

Família e pandemia



Em tempos difíceis de quarentena pelo novo Coronavírus - COVID-19, mais que nunca o que aparece, além das devidas precauções com nossa saúde como lavar as mãos e manter-se isolados, são as relações familiares. Como conviver confinados , mergulhados em nossa própria família? A pergunta por si só, já contém uma única resposta, pois não há opção além da convivência em quarentena. O confinamento nos obriga olhar para estas questões mais de perto, aliás é praticamente impossível não sobressaltar aquilo que estava empoeirado ou latente na família. A pandemia mundial é um sopro estranho, um turbilhão invisível, e a quarentena uma obrigação ética, solidária e familiar.


Jacques-Alain Miller já nos alertava que "há sempre alguma coisa a resolver nos laços de família, como se houvesse aí alguma coisa a ser compreendida, como se aí residisse sempre um problema não resolvido cuja solução deve ser buscada em alguma coisa que a família tem escondida" . Lidar com estes segredos não revelados ou no desvelamento dos mesmos, é um desafio cotidiano em quarentena.


Me deparo então, com uma obra de arte de Pablo Picasso de 1903, até então, não viva em minha memória: "a família Soler" . Sentados para fazer um piquenique estão seis pessoas: o pai, a mãe e os filhos. Além disso, um cachorrinho ao lado da mãe e um coelho que foi morto de espingarda pelo pai. Olhando na mesma direção, não parecem felizes. Benet Soler foi o alfaiate de Picasso e este quadro foi em troca de alguns ternos. Benet quis retratar sua família, numa atmosfera campestre, mas não deixou de fora a morte. O coelho , produto da caça, exposto na toalha é o que o alfaiate não pôde esconder.


Os olhares para a mesma direção, olhares vazios da condição humana perante a morte, pressupõe esta unidade existencial, segundo Picasso. Mas é importante ressaltar o que cada membro desta família vê e interpreta desta cena. Talvez aí, neste lugar de unidade familiar Picasso tenha se equivocado. A família é composta por vários olhares, opiniões diversas. Uns desejam olhar sempre o coelho abatido, outros: a toalha exposta à mesa.


Que soluções individuais teríamos então, frente ao impossível de lidar? Para além da desesperança e angústia da família Soler e de nossas famílias, podemos encontrar invenções menos fúnebres na quarentena?

Referência: Assuntos de família no inconsciente. Jacques-Alain Miller. Disponível em: http://www.isepol.com/asephallus/numero_04/asephallus04.pdf.



Psicóloga Tatiane Fuggi

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